domingo, 23 de agosto de 2015

Veredito



Posso até mesmo estar sendo injusto, emitindo um julgamento errado. Mas meu veredito é culpada! 

Culpada por ter entrado na minha cabeça e não ter saído mais. Culpada por perturbar meu sono e se misturar aos meus sonhos. Culpada por trazer no seu sorriso um raio que mesmo me partindo ao meio me faz sentir o homem mais inteiro do mundo.

Culpada por acender tochas onde antes só era escuridão. Culpada por aquecer meu inverno com apenas a intenção de um abraço. Culpada por me dar do teu olhar uma doçura sem igual e um veneno necessário à sobrevivência.  

És culpada por fazer a terra se mexer. Ainda que ninguém mais o sinta, eu sinto, e isto basta! 

És culpada por manter todas as coisas suspensas. O céu, o  mar, o tempo, a luz, as estrelas. Culpada por me embebedar com palavras inofensivas. Por bombardear a esmo as minhas cidades e depois reconstruí-las uma a uma.  

Culpada por me fazer aprender a viver sem ar, sem bússola, e ainda sim conseguir de mim a absolvição. 

sábado, 6 de junho de 2015

Fotogenia


Tu me fazes sorrir
E ao teu lado me sinto tão bem
Que às vezes me estranho.

Sou eu e não sou eu
Um avesso de mim
Uma resposta de ti.

Tu és o espelho
Que melhor me reflete
E sabes aproveitar
O que há de melhor em mim.

Sou belo, porque sinto amor.
Sou luz, porque visto os teus olhos.
Sou tempo, porque durmo em teu seio.
E vejo passar as estações sem me inquietar.

Tu me retiras todos os dias
O cisco
E me fazes enxergar

Bem melhor.

domingo, 31 de maio de 2015

Nauta


"Por isso com teus gestos me vestiste 
E aprendi a viver em pleno vento." 

(Sophia Andresen)

Não sei se isso acontece com todo mundo. Se de uma hora para outra a nossa vida é revirada a ponto de abandonarmos antigos projetos e deixar de lado coisas tão importantes. Foi o que aconteceu comigo! Parei de escrever, porque a minha vida estava tão bagunçada, que as palavras perderam sentido.

Acho que chega uma hora que tudo desbota. Acontece isso com o muro pintado de amarelo, com as flores guardadas dentro de um livro, com o sorriso que não encontra retribuição em outros. As palavras também desbotam. O que foi uma grande habilidade transformou-se num ato repleto de vazios.

Nem a tentativa de me convencer feita por alguns amigos me fez pensar em retomar antigos projetos. Foi quase tudo arquivado em uma gaveta, e uma parte esquecida, porque machucava toda vez que eu me esforçava para trazê-la à tona.

É difícil as pessoas entenderem, sobretudo, quando algo é tão corriqueiro e de repente passa a não estar tão presente no mundinho delas. Quando você está magoado, uma parte da sua energia se dispersa. O mundo parece outro, porque a sua ótica fica embaçada.

Eu não queria escrever naquele momento. Não conseguia. Não queria ter que compartilhar as minhas dores, as minhas frustrações, ainda que tudo isso pudesse me servir de combustível. Era um fardo pesado demais, e eu não queria dividi-lo. O ressentimento havia pisoteado cada palavra, esmagado cada sentido e escrever, naquele instante, havia se convertido numa forma de violência, de agressão.

Alguns chamam este momento de “bloqueio criativo”, muitas vezes acometido sem nenhuma explicação. No meu caso, havia uma razão. Eu não conseguia mais lidar com os meus sentimentos,  duvidava deles. As ideias estavam confusas.

Sabe aquela sensação de entrar numa casa estranha e ficar sabendo depois que aquela casa, na verdade, sempre fora a sua? Pois, era assim que eu me sentia em relação às palavras. Conhecia-as intimamente, mas já não me sentia mais tão à vontade para lidar com elas.

Preferi o exílio, porque dentro da minha complexidade, era a única forma de reencontrar uma saída e refazer o caminho de volta para casa.

Não conseguir estar mais em sintonia com o mundo ao meu redor, era me sentir pela primeira vez fora do meu aquário, do meu círculo de proteção. Precisei aprender a buscar fôlego nos lugares mais recônditos. Entoar novos mantras. Enfim, reaprender a respirar! Não, no tempo dos outros, mas no meu próprio tempo, longo, arrastado, frutífero.

Hoje sinto que está na hora de sair do casulo. Eu, que tantas vezes, como uma larva passo por inúmeras metamorfoses, decidi romper com essa longa e dolorosa experiência de retiro e maturação. Estou pronto para o voo. Pronto para as palavras. Sinto-as murmurarem dentro de mim, como as águas de um regato, rompendo cada obstáculo na direção do rio.  


Está é uma nova fase que se inaugura no “Dossiê”, algo de caráter mais experimental, porque  recém-saído desta densa casca, preciso saborear o mundo, prová-lo novamente com todos os meus sentidos. Vou deixar o barco correr ao sabor das correntezas. Enfunar as velas, confiar no vento, na intuição.